A genética da esquerda-direita

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Breve resenha de Our Political Nature, do antropólogo, evolucionista, psicólogo, consultor político, orador e norte-americano Avi Tuschman.

O texto da orelha promete provar de uma vez por todas que as nossas crenças ideológicas são determinadas pela genética. Porém, o autor se pendura no darwinismo, cita fontes e estatísticas em abundância sobre estudos quase-definitivos com chimpanzés e orangotangos. Mas todos aqueles estudos, citações, tabelas, números, chimpanzés e orangotangos são dispensáveis. Tuschman tem Basboosa. Basboosa é seu protagonista. Basboosa é seu herói. Basboosa não teve uma vida fácil: perdeu o pai quando tinha 3 anos e a mãe o deixava com parentes para trabalhar e sustentar o que havia sobrado da família. Basboosa cresceu numa vila do norte da Tunísia, serviu o exército, passou por sub-empregos e terminou como vendedor ambulante de frutas e verduras. No dia 17 de dezembro de 2010, ateou fogo em si mesmo para protestar contra as injustiças do governo. Seu martírio foi um dos estopins para a Primavera Árabe.

Como eu, o leitor deve estar se perguntando o que a trágica história de Basboosa tem a ver com tabelas, números, citações, darwinismo, chipanzés e orangotangos. Algumas páginas adiante, o próprio autor explica que a atitude de Basboosa é movida por um temperamento – de origem genética, faz-me crer – idêntico ao dos manifestantes do Occupy Wall Street – e, concluo, também dos zumbis do MTST de Guilherme Boulos.

Avançando nas páginas, descobrimos surpresos que Tuschman usa e abusa de tabelas, números, citações, darwinismo, chipanzés e orangotangos apenas para reafirmar a teoria do binômio esquerda-direita, tão velha quanto os anos 60. Em suma, a orientação política se dá por uma disposição de temperamento, agora, atualizada para um determinismo genético – coisa tão pueril quanto absurda.

Mas Tuschman simula a neutralidade científica e não ousa fazer afirmações categoricas. Apenas sugere, com tabelas, números, citações, darwinismo, chipanzés, orangotangos e genética, uma teoria política tão profunda que, diria Nelson, uma formiga atravessaria com a água pelas canelas.

A conclusão é que a genética determina as posições políticas, mas a exposição é baseada naquela crença que todos os filiados do Psol adotaram desde a universidade: o direitista busca a ordem, a autoridade, a ditadura, o reacionarismo e todas as variantes de adjetivos usados para se referir à família Bolsonaro. Já o esquerdista busca a igualdade, a liberdade, a fraternidade, a democracia, a justiça e o amor – e como cortesia, leva um Jean Wyllys.

 

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Avi Tuschman
Our Political Nature: The Evolutionary Origins of What Divides Us. Prometheus Books, 2013, 543 págs.

 

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