Estruturas de pecado, de Fabrice Hadjadj

“A expressão é freqüentemente usada, mas raramente compreendida nas suas implicações. A primeira é que uma tal estrutura não é o fruto de uma só decisão, mesmo comum. Ela não corresponde a uma simples instituição humana, porque está além de seus atores. A isso se pode imputar a perda de visibilidade e de responsabilidade que implica a divisão burocrática do trabalho. Mas isso vai ainda mais longe. A estrutura do pecado se baseia num conjunto de instituições adversas, num encaixe de intenções contrárias, de conflitos que se coordenam e nos enredam para colocar a culpa no bravo zigoto. O efeito perverso que resulta disso ultrapassa a perversidade para a qual os homens concorrem. Esses aparecem então como “inocentes culpados”, nunca inteiramente inocentes, mas não mais inteiramente culpados. Esse é talvez o maior sucesso de tal estrutura: favorecer crimes massivos, mas com um ar natural, sem ódio, sem nada, de forma higiênica e mecânica, de modo que as consciências não fiquem muito perturbadas. Cada um pode se crer no seu direito. Cada um pode ter o sentimento que combate o erro oposto. E cada um poderá pleitear, mais tarde, não ter errado senão pela metade: “Não é minha culpa, eu não sabia, eu fui enganado, etc”

Eis, portanto, um complô cujos conspiradores não combinaram, e até mesmo se denunciam uns aos outros. Eis uma tolice multiforme que se antecipa melhor que a mais fina estratégia, além de saber preparar uma armadilha com um gênio que excede seus protagonistas. Fábula de abelhas onde, numa semiconsciência, os interesses individuais e divergentes convergem não para produzir mel, mas para uma fantástica amargura”.

 – Fabrice Hadjadj – A Fé dos Demônios ou a Superação do Ateísmo, Vide , 2018

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