Baudelaire e a Possessão, de Fabrice Hadjadj

O poeta escreve no seu diário íntimo: “A maior astúcia do Diabo é nos persuadir de que ele não existe”. Igualmente a possessão mais diabólica não é aquela totalmente histérica, mas a sentimental: “Vede George Sand. Ela é especialmente, e mais que qualquer outra coisa, uma enorme besta, mas está possuída. É o Diabo que a persuadiu a confiar no seu bom coração e no seu bom senso, a fim de que ela persuada os outros a confiar no bom coração e no bom senso deles”.

Não se poderia interpretar melhor o pecado de Eva. Quanto àquele de Adão, Baudelaire não deixa por menos: aqui, a mais diabólica possessão não é medievalesca, mas a progressista: “O que é se entregar a Satanás? O que pode ser mais absurdo do que o progresso? Considerando que o homem, como se prova pelos fatos diários, é sempre parecido e igual ao homem, isto é, sempre em estado selvagem, o que são os perigos da selva e dos campos perto dos choques e conflitos cotidianos da civilização?”

 – Fabrice Hadjadj, em A Fé dos Demônios ou a superação do ateísmo, Vide Editorial, 2018.

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