A vida por uma teoria

A palavra Ideologia entrou para a história de uma forma bastante singela. Antoine-Louis-Claude Destutt (1754–1836), o conde de Tracy, cunhou o termo para se referir a uma nova ciência que havia criado. Ideologia, a ciência das ideias. Tudo ia mais ou menos bem, Destutt de Tracy já havia escrito seu tratado inicial em 4 volumes e a sua Ideologia estava em crescente difusão na França pós-revolucionária. Eis que surgiu Napoleão no horizonte do século, como o Vesúvio no horizonte de Nápoles, para usar a imagem de Victor Hugo. O gênio do estilo do imperador, ou o estilo do seu gênio, transformou a nova ciência do conde de Tracy numa arma da retórica política. Depois da malfadada campanha Russa, Bonaparte precisava de um inimigo interno para satisfazer a sua personalidade belicosa: atacou de Tracy e seus discípulos, taxando-os de ideólogos e criticando a sua doutrina racionalista.

Mais tarde Karl Marx retoma a discussão para elaborar seu próprio conceito de ideologia para atacar os jovens hegelianos. Sua posição é muito semelhante à de Bonaparte: os ideólogos promoviam uma doutrina abstrata que não mantinha nenhuma relação com a realidade prática e nem com a vida social e política. Tal como os discípulos do conde de Tracy, os Jovens Hegelianos acreditavam que a verdadeira batalha se desenrolava no campo das ideias.

Conceitos à parte, a característica mais marcante do pensamento ideológico atual é as pessoas moldarem suas vidas por conta de uma teoria. A realidade é sempre mais complexa do que podemos imaginar. Isto não quer dizer que é impossível um diagnóstico bastante aproximado dos acontecimentos políticos, mas é sempre bom desconfiar das pessoas que têm muita convicção de estarem certas o tempo todo. Chesterton dizia que o louco perdeu tudo, menos a razão.

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Foto:  Jaap Arriens

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