O Requiem de Lula

Nada poderia ser mais apropriado ao fim da história de Lula do que um ritual pseudo-religioso. Só assim seria possível purgar um misticismo histérico criado ao seu redor.  Lula é realmente maior que o PT, não há mais dúvidas depois do culto falso que lhe fora oferecido por falsos sacerdotes e falsas lideranças políticas. Jamais se tratou de uma homenagem à falecida; tampouco de uma estratégia para postergar a inevitável prisão. Foi, de fato, uma cerimônia de corpo presente. Dois corpos, para ser mais exato. Era necessário todo aquele ritual medonho para por fim não somente à mitologia do líder operário que liderou o maior esquema de corrupção da história do país dos corruptos, mas também a esperança que muitos depositavam nos profetas da revolução.

A história é sempre imprevisível. Mas no caso do PT tudo estava dado antecipadamente. Muitos foram seduzidos pelos ideais propostos, de metalúrgicos a intelectuais, de atores de novelas aos carregadores da Ceagesp. A salvação estava disponível para todos, mas a realidade é insensível: transformou a teoria de se construir um país perfeito e feliz, na prática cotidiana de uma vulgar organização criminosa. Toda ideologia vive de sua mística e morre na sua política, já dizia Charles Péguy.

Mas a mística permanece, e a esperança sempre se renova, moderniza-se e nos encanta. E não tardará para que estejamos mais uma vez diante da mesma escolha: abrir os olhos para a realidade ou mantê-los fechados para as utopias pelas quais seremos novamente oferecidos em sacrifício aos deuses da revolução.

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Imagem: Amanda Perobelli / Estadão.

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