Os gatos de Kant

Uma das características mais efusivas da modernidade é interpretação subjetiva das ideias alheias. A técnica consiste em interpretar frases e excertos mal compreendidos, intercalando-os de una maneira que possam convergir com as próprias ideias de quem os enuncia. É o método mais usado nos programas de mestrado e doutorado, e também o preferido dos intelectuais de redes sociais. 

Um exemplo recente se deu com a filosofia de Kant. Um amontoado de citações e pareceres dúbios chegava à conclusão de que, quando Kant via um gato, não acreditava na existência real do felino, mas somente no fenômeno produzido pela sua mente que projetava um conceito de gato no tapete da sala.

Mas essa história é um pouco diferente. Na verdade, Kant distinguia o entendimento (verstand) da razão (vernunft). A ele, o entendimento organiza os dados da experiência captados pelos sentidos, unificando-os para nos dar uma percepção mais abrangente do mundo. Já a razão é a capacidade humana para procurar princípios que expliquem os fenômenos captados através dos dados da experiência. A razão, para Kant, é essencialmente metafísica, por isso, acaba entrando em conflito com o mundo físico que pretende explicar com princípios abstratos, algo que não ocorre com o entendimento, afinal, é a mera capacidade de receber e organizar os dados da experiência mundana captados pelos sentidos. 

Em suma, Kant percebia a existência real do gato, mas percebia também um conflito entre a existência física do gato e a sua explicação racional que tendia para a abstração metafísica, o que, segundo ele, criava um abismo entre o fato real que estava diante dos seus olhos e a explicação intelectual gerada a partir da reflexão do fenômeno. Diante do problema, propõe uma “metafísica dos costumes”, deslocando-se do domínio teórico (puramente racional) para o domínio prático da ação moral — já que concordava com Aristóteles sobre somente o homem ser capaz de agir moralmente (cf. Ét. a Nic., X, 8, 1178b). Portanto, seria uma mudança do âmbito cosmológico para o âmbito antropológico. Kant pensava ser possível estabelecer uma ponte entre o entendimento e a razão, considerando que, embora possamos perceber pelos sentidos que estamos no mundo, nossa razão nos permite compreender que não somos do mundo quando tomamos ciência de que estabelecemos costumes que não se fundamentam na experiência, mas em princípios transcendentais — que ultrapassam os limites do conhecimento e da experiência.

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