A política e o charlatanismo

A  ideologia herdou todas as trapaças do hermetismo do século XVIII. Como os charlatões e ocultistas com suas bolas de cristal e borras de café no fundo da xícara, os ideólogos modernos utilizam uma linguagem místico-simbólica, baseada num fluxo de informações incontrolável, com significados e alusões infinitas e contraditórias que superestimulam o cérebro. Segundo a neurociência, isso aumenta de forma significativa o cortisol e a adrenalina em sistema nervoso, o que nos deixa confusos e inquietos.* A impressão é de estar sempre muito bem informado, mas o estado opressivo de dúvida cria a ilusão de estarmos diante de conhecimentos profundos e altamente qualificados. Assim como o charlatão, o ideólogo torna-se uma autoridade incontestável e passa a apresentar absurdos com ares de sabedoria perene. Neste ponto, as vítimas já beiram a um colapso nervoso, como diagnosticou o psiquiatra Leon Festinger** com sua teoria da dissonância cognitiva. Então, diante de um paradoxo causador de uma desarmonia psicológica, uma das tendências é simplesmente negar as informações que estejam em conflito com nossos interesses. O próximo passo é buscar justificativas para essa negação e isolar-se em grupos que partilham dos mesmos ideais, criando, juntos, fluxos de informação com o máximo de notícias e fontes que corroboram as suas crenças.

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* Cf. Martin J. Eppler e Jeanne Mengis, The Concept of Information Overload. Journal of Management Information Systems, Vol. 16, 1999 – Issue 3, pp. 325-344.
** Leon Festinger, A theory of cognitive dissonance, Evanston, IL: Row & Peterson, 1957.

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