“O Brasil precisa de dinheiro”

O nosso chanceler Araújo não um chanceler qualquer. É o mais importante propagador do pan-nacionalismo brasileiro, conquistado a duras penas com quarteladas, balaiadas, facadas, presepadas, e, agora, com um pouco de esoterismo que se pretende ciência política. 

Araújo também é devoto: dá glória a Deus, parágrafo sim, parágrafo não; e muito destemido: pretende restaurar uma espiritualidade que, à seu juízo, o Ocidente perdeu. E é no vazio espiritual do Ocidente que o sorumbático Araújo acredita estar crescendo a ameaça islâmica. Como remédio à impiedade ocidental que “matou Deus”, nosso homem de fé propõe algo curioso: o esoterismo islâmico de René Guénon. Entenda-se: o sufismo islâmico de Guénon é ecumênico. Alguns dizem até parasita, como toda seita religiosa que sempre pretende “fazer dinheiro” no varejo espiritual, criando produtos para todos aqueles que buscam se harmonizar indiscriminadamente com o cosmos, a fim de transmigrar rumo à transcendência em barcas místicas ou em trêileres com motores Ford.

Mas o afortunado Araújo é, além de tudo, um empreendedor. Quer fazer comércio com o mundo, afinal, “o Brasil precisa de dinheiro”, como profetiza o seu guru, Olavo de Carvalho. A única coisa que ficou obscura é o tipo de produto que o mercador Araújo pretende colocar à venda, afinal, com tantos concorrentes, o nosso prodigioso chanceler terá de fazer um pouco mais do que os passes de mágica semânticos que normalmente se usa para ludibriar o consumidor. E o inabalável diplomata não nos decepciona. Num ensaio publicado na revista de estudos do Itamaraty, mistura devaneios políticos, esoterismo religioso e sobrenaturalidade esportiva para nos convencer, definitivamente, da importância de acolhermos uma divindade para preencher o vazio espiritual da civilização. E nos oferece, com adesão gratuita, o Deus libertino de Donald Trump, além da divindade místico-psicológica de Carl Gustav Jung, o Alá-Absoluto e pseudo-hegeliano de René Guénon, o Javé estatal proto-israelense, o Deus de shopping center do protestantismo pentecostal, a deidade do sol nascente da Revolução Americana e, numa oferta irrecusável, o deus-combo, ecumênico-ideológico, do pan-nacionalismo ernesto-araujeano, que representa a “esssência comum” de todos os anteriores.

É a black friday que chegou no Itamaraty. E o Brasil precisa de dinheiro.

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