O melhor dos mundos

Fukuyama decretou o fim da história. Antes dele, Hegel. E antes de Hegel, Kant já sonhava com a ideia de uma paz absoluta. O homem progredia no conhecimento, desenvolvia sua ciência e ia, ao poucos, tornando o peso da existência mais leve e o tormento da condição humana mais palatável. 

Logo no início do seu Discurso do Método, Descartes apresenta a razão matemática como uma nova ciência que substituiria a erudição eivada de superstições; portanto, não seríamos mais enganados pelas histórias e fábulas extravagantes que vigoravam até a chegada do cartesianismo. Os iluministas também viam na história uma vilã. Voltaire dizia ser “uma acumulação de crimes, desatinos e desastres”, por isso ela deveria ser domada pela razão e, assim, o homem poderia se livrar dos grilhões dos preconceitos e superstições. A certeza racional exigia um rompimento com o passado. Condorcet, mais ingênuo, até chegava a conceber eras de progressos contínuos que culminariam numa idade de ouro. Na sua perspectiva, a natureza não colocou limites para a perfectibilidade do espírito humano, portanto, o homem iria se aperfeiçoando até chegar o tempo em que o “sol iluminaria somente os homens livres que não reconheceriam outros mestres a não ser a sua própria razão”.[1] A sua ingenuidade permitia-lhe produzir essas opiniões extravagantes num estilo literário cheirando a naftalina.

De qualquer forma, a esperança do progresso rumo ao mundo melhor estava depositada na razão humana. A política, a cultura e todo o fundamento da sociedade passaram a ser pensados cientificamente. Era preciso romper com o passado e com o presente, partindo da presunção de que tudo haveria de recomeçar a partir do instante revolucionário que projetaria o amanhã, um novo dia, uma nova realidade, um novo homem. Mas nem tudo saiu como planejado. A própria Revolução Francesa chorou suas infâmias. O próprio Condorcet tornou-se vítima do fanatismo das luzes e do progresso que ele mesmo defendia. A Guerra da Vendeia é o primeiro genocídio moderno. Enfim, em nome da fraternidade, os franceses invadiam nações e enforcavam populações inteiras. Os revolucionários diziam estar socorrendo os povos que desejavam recuperar sua liberdade. Mais tarde Trotsky imortalizava a ideia numa frase pitoresca que lhe atribuíram: “não é possível fazer omeletes sem quebrar os ovos”. Então já temos uma nova e horrenda raça de mártires, como observou Camus: seu martírio consiste em aceitar o fardo de infligir o sofrimento aos outros.[2]

Depois de genocídios e guerras, o homem perdeu a confiança em si mesmo. Da sua decadência emergiu a necessidade de um poder comum destinado a manter os homens intimidados, como defendia Hobbes. A síntese dessa história, portanto, é a exaltação do homem e sua razão, seguida de um deslumbramento com o progresso inevitável que traria o melhor dos mundos e, por fim, a total decepção com a humanidade. Sobrou a razão, solitária, que logo viria a ser encarnada na figura do Estado científico-positivista. Portanto, o progresso tinha um novo motor histórico. Para Kant, que viria a influenciar definitivamente os rumos do Estado moderno, o mundo progredia para o estabelecimento de uma era republicana que resultaria numa paz perpétua ideal a ser buscada através de uma confederação de estados. Isto seria, inclusive, a realização de um plano secreto da natureza,[3] já que valores morais como Liberdade e Justiça, segundo Kant, eram imutáveis. Bastaria que os homens seguissem a marcha do progresso moral, assim como acontecia com a razão e também com a ciência.

Ainda daria tempo para Hegel secularizar o milenarismo religioso de Joachim de Fiori,[4] que via a história dividida em três idades: a do Pai, poder absoluto consagrado pelas leis do Velho Testamento; a do Filho, a sabedoria divina que se revelava; e a do Espírito Santo, do amor universal e da igualdade entre os homens. A escatologia hegeliana segue a escatologia joaquimita, trocando apenas os valores religiosos por valores laicos: a primeira idade era da consciência universal, a segunda da consciência que o homem passava a ter de si, e a terceira era a realização do Espírito. Karl Marx seguiu a trilha e interpretou a consciência universal como socialismo primitivo, a consciência de si como sociedade de classes, por fim, o Espírito como a expressão do paraíso terrestre que surgiria com o advento do Comunismo.

Embora divergissem na transposição dos valores religiosos do milenarismo de Joachim de Fiori para os seculares do mundo moderno, Kant, Hegel e Marx não tinham dúvidas de que a realização da liberdade humana só poderia ser alcançada através de um Estado – ainda que também divergissem em relação ao tipo de “poder comum destinado a manter os homens intimidados”.[5]

 

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[1] Condorcet,  Esquisse d’un tableau historique des progrès de l’esprit humain, Chez Masson et Fils, Paris, 1822, p. 271: “Il arrivera donc ce moment où le soleil n’éclairera plus sur la terre que des hommes libres, et ne reconnoissant d’autre maître que leur raison”.
[2] Cf. Camus, L’Homme Révolté, Gallimard, 1954, p. 219.
[3] Cf. a oitava proposição exposta no seu tratado Idéia de uma História Universal de um ponto de vista cosmopolita.
[4] Cf. Henri de Lubac, La posterité spirituelle de Joachim de Flore, Éditions du Cerf, Paris, 2014.
[5] “A common power to keep them in awe”, Leviatã, cap. 17.

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