O entretenimento do mundo

Com uma quantidade infinita de informações, a tendência é de que a qualidade diminua e a mídia se torne banal. Nossa atenção é sempre disputada pela diversidade de entretenimentos ao nosso redor. Devido a escassez de tempo, acabamos condicionados a obter informações instantâneas, sem ter a oportunidade de refletir sobre elas. O resultado é uma certa vulgarização da cultura, onde na maioria das vezes circulam apenas informações superficiais, afinal, estamos na época dos compêndios e dos best of, das sinopses e das opiniões sintetizadas de youtubers sobre temas complexos que mereceriam uma atenção particular. Assim, as notícias e os debates na imprensa tornam-se irrelevantes e são substituídos por meras impressões e emoções pessoais que justifiquem algum engajamento político, o que faz da fake news não apenas um resultado lógico, mas algo desejável para reafirmar essas mesmas impressões e emoções que venham justificar uma tomada de posição diante de fatos concretos.

Os debates públicos passam a ter um caráter trivial, pobre, desarticulado, onde todos só sabem fazer discursos. A tática parece ser falar o bastante para cansar o interlocutor. Plutarco estava certo em relação à tagarelice, pois o mundo se tornou um lugar extremamente barulhento.

De qualquer forma, com a banalização perpetrada pela massificação da mídia, a verdade tornou-se irrelevante. O conhecimento passa a ser o mais corriqueiro e insignificante possível. Os boatos e as informações de bastidores tornam-se as mais procuradas pelo público e a credibilidade da informação passa a ser medida pelo status de ter uma grande audiência, ou seja, aquilo que é mais divulgado ganha automaticamente uma certa respeitabilidade, mas também pela sua baixa audiência, já que o desconhecido acaba sempre ganhando uma aura de conhecimento secreto reservado a pessoas que conhecem o mundo melhor do que os servidores da Wikipedia. Além disso, existe a ideia de que as notícias ruins, portadoras de catástrofes, são mais importantes do que as notícias boas que não despertam o nosso instinto de sobrevivência. 

Nesse clima de confusão e radicalismos extremos, é preciso lembrar que, como dizia George Bernanos, uma civilização não desmorona como um edifício, mas vai esvaziando-se pouco a pouco de sua substância até que não lhe reste nada mais do que apenas uma casca. Com ele poderíamos dizer com ainda mais rigor que uma civilização desaparece com a espécie de homem, com o tipo de humanidade que dela se originou. E realmente a humanidade parece ter perdido o rumo. Estamos visivelmente perdidos e há quem diga que os dias do homem estão contados, afinal, desde que comeu aquela maçã, pois sua decadência parece irreversível. 

Mas a ciência promete um futuro promissor, ainda que não seja especificamente para o homem. Para dar um exemplo recente, um cientista de Hong Kong desenvolveu uma ginoide – feminino de androide –, que é algo mais ou menos como uma boneca inflável que finge ter sentimentos. O fato levantou algum entusiasmo, mas a alegria durou pouco. Sophia, a boneca inflável e inteligente, tornou-se cidadã da Arábia Saudita, com direitos e deveres, informa a respeitável agência de notícias Reuters. Creio cá com meus preconceitos que Sophia terá mais deveres do que direitos, mas isso não é da minha conta.

De qualquer modo, aventuras tecnológicas deste tipo já têm nome social: transhumanismo. E as promessas não são poucas: do fim da calvice à visão para cegos; de surdos que ouvem a paralíticos que levantam e andam. Já não falamos mais do romantismo de corpos congelados até que surja a cura de uma doença incurável; tampouco de pílulas com microchips e alimentos sem glúten. O que nos prometem agora é a realidade artificial dos übermenschen, que consiste num upgrade do homem, subtraindo todas as suas imperfeições e adicionando poderes super especiais nunca antes visto desde os Cavaleiros do Zodíaco.

É óbvio que a ciência, com sua Inteligência Artificial, trará benefícios para a nossa vida cotidiana. Também é óbvio que a imprensa sempre se entusiasmará com o lado mitológico e cinematográfico das descobertas científicas, criando expectativas que nunca serão satisfeitas e frustrações que nunca serão superadas. Mais óbvio, porém, é a incoerência de um homem imperfeito ter a pretensão de ligar na sua tomada de 3 pinos uma fabulosa e perfeitíssima criatura bivolt que pode melhorá-lo. Não há imperfeição mais perfeita do que iludir-se com a própria ilusão. Não há imperfeição mais perfeita do que o desejo de se tornar uma máquina por não se suportar mais como um mísero ser humano.

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