Obscurecimento da inteligência

Já temos o ambiente ideal para o advento do homem-massa de Ortega y Gasset. O señorito satisfeito que acredita ser portador de todos os direitos que sua vontade pode conceber; que acredita ter a vocação de opinar sobre tudo, porém, perdeu a audição: não ouve, não permite que outros tenham opiniões diferentes. É o novo homem, banal o bastante para não querer dar razão e nem querer ter uma própria.

O señorito satisfeito é também um deslumbrado. Ele acredita que pode dominar o mundo com estatísticas e um sistema de gestão online. Seu objetivo de vida é transformar as relações humanas num algoritmo, é encontrar um meio de resolver os problemas da vida humana como se resolve um problema de linha de transmissão; ele acredita ser possível separar o sujeito humano do sujeito técnico quando exige que um funcionário não traga para a empresa um problema pessoal. No fundo é um positivista: crê piamente na salvação pela técnica, na mística dos números e na doutrina do Power Point e das planilhas Excell. Sua fé e sua esperança estão depositadas nas normas de certificação de qualidade, até porque ele acredita que a felicidade é nada mais do que um sistema de gestão com relatórios burocráticos duas vezes por semana, aos quais, naturalmente, a realidade deve se ajustar. 

Não é à toa que a vida privada fora abolida. Atualmente a vida pública conta mais do que um curriculum vitae recheado de habilidades profissionais e cursos multidisciplinares que consumiram infinitas horas-aulas: as pessoas são aquilatadas não mais pelo que são ou pelo que sabem fazer, mas pelas respostas que um sistema de gestão espera dela – e para o qual devem ser treinadas. A curva de vendas e de produtividade foi substituída por atitudes pré-determinadas, e a participação nos lucros por uma plaquinha de funcionário do mês. 

Este ambiente foi preparado no século XX, quando transformaram o homem numa peça de uma engrenagem, tal como os personagens de Charles Chaplin em Tempos Modernos. Era preciso um treinamento que capacitasse o homem para responder mecanicamente a situações previsíveis dentro de um processo mecanicista. Aperfeiçoar o homem é tão somente exigir que ele siga protocolos, preencha formulário e realize o check list tão logo termine as suas tarefas. A razão, incrementada pela técnica, permitiu que o homem se tornasse irrelevante dentro de um ambiente totalmente controlado. Assim, criou-se a ideia de ser possível – e fundamental – eliminar as incertezas e inconstâncias da vontade humana, e a sociedade passou a ser vista com uma obra de engenharia. Não se trata “do que o seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país”. Nesse tecnicismo político, os idólatras da eficiência procuram sempre um método, um plano quinquenal que sacrifique o homem apenas para se alcançar uma visão de mundo. A sociedade, com todas as suas contradições e injustiças, deve ser manipulada para atingir objetivos planejados com técnicas, fórmulas e cálculos mais ou menos complexos.

Talvez seja necessário um parêntesis para esclarecer que não estou encampando uma luta quixotesca contra a técnica nem insinuando uma nova distopia em que a máquina escraviza a humanidade. Tento apenas expor a ilusão da burocracia da técnica que insiste em proclamar o progresso tecnológico como civilizador e aperfeiçoador do homem. É certo que existem pessoas que têm medo da tecnologia e da bomba atômica; eu temo apenas os relatórios, os cronogramas e os planejamentos quinquenais. Porque, como dizia Gustavo Corção, a bomba atômica, nas suas mais perigosas realizações, com todo o seu portentoso acúmulo de energias, obedece a três ou quatro palavras escritas numa ordem de serviço. É um Leviatã dócil. Quem nem sempre é dócil é o homem que assina a ordem de serviço.[1] Portanto, não é prudente deixarmo-nos seduzir pela ideia genial do método infalível que exige a suspensão temporária – quem sabe definitiva? – da humanidade. 

O problema sempre é tentar reduzir a métodos práticos tudo o que se passa no mundo, com a presunção de poder conhecer e manipular todas as coisas. Isto não leva apenas a uma má compreensão ou a uma compreensão errada porque significa, de fato, apenas ignorar o que ainda é desconhecido, fingindo não existir a imponderabilidade da liberdade humana.

A inteligência pressupõe limite, pois não é possível conhecer e prever tudo. Ignorando isso, a conclusão não é negar a realidade, mas tudo aquilo que não se percebe e que não se vê, afirmando preconceitos e crenças que não se justificam racionalmente. É o obscurecimento da inteligência de que trata o filósofo italiano Michele Federico Sciacca.[2] Porque o homem pode cair a um nível puramente animal-racional, que é a forma mais completa e contraditória de irracionalidade. O animal está privado de inteligência, mas não do cálculo exato e infalível segundo o mecanicismo de seus instintos. Já o homem, não perde a razão, mas a luz que a ilumina. Assim, com sua inteligência obscurecida, ele passa a utilizar seus cálculos exatos e infalíveis apenas para justificar suas vontades e interesses.

A partir de então tudo passa a ser medido conforme a sua utilidade mais imediata. O resultado é tornar o homem incapaz de estabelecer juízos de valor e, por isso, acaba aceitando tudo impassivelmente, sem nenhum questionamento. Em suma, é a banalidade do mal que Hannah Arendt viu no Holocausto,[3] quando homens normais passaram a cumprir ordens psicopatas, e que Zigmunt Bauman retomou para estabelecer o ápice da insensatez da modernidade líquida.[4]O ceticismo radical pós-moderno cria um ambiente não apenas de desconfiança mútua, mas de banalização e relativização dos valores morais e das relações pessoais. Num mundo em que os valores mudam constantemente, nada parece ter sentido, nada é sólido porque tudo flui de forma líquida, para usar a terminologia de Bauman. As distinções se dissolvem no tempo e tudo pode ser reinterpretado à luz de um novo valor a ser perseguido em função de algum interesse obscuro. Como nada mais tem sentido, resta-nos buscar alguma satisfação pessoal para aplacar o fardo da existência pesando sobre as pernas. Restou-nos apenas a felicidade utilitária burguesa. 

Assim, de um materialismo radical, passamos a um individualismo mimado até chegarmos no símbolo absoluto da pós-modernidade: o irracionalismo ideológico-extremista. É preciso sempre uma atitude radical para ser reconhecido num mundo em constante mudança, mas esse radicalismo deve ser seguro o bastante para que ninguém corra riscos. Em busca de segurança, a sociedade burguesa sempre enterra seus talentos. Nesse mundo artificial e de aparências, é preciso ser alguém com consciência social, preocupado com o meio ambiente, com a saúde física, mental e espiritual, além de estar sempre atento porque as novidades aparecem e somem sem deixar rastros. A sociedade do espetáculo é feita de  aparências, é mera propaganda. Egoístas, todos buscamos a satisfação pessoal, mas também é preciso zelar pela auto-imagem.

Fazendo da cultura um mero entretenimento, chegamos a uma contraposição de dois apocalipses literários que marcaram o século XX: 1984, de George Orwell e Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Duas tentativas de descrever as catástrofes políticas alimentadas pelos devaneios ideológicos. Orwell preocupava-se com a supressão de liberdade gerada por estados totalitários: com o intuito de garantir a igualdade entre os homens, muitos regimes fizeram todos iguais, embora alguns fossem mais iguais do que outros, dependurando-se numa burocracia privilegiada que determinava as condutas permitidas pelo Estado. Já Huxley se preocupava com algo um tanto mais sutil: ao invés de sermos dominados por uma “cultura ideológica”, sermos drenados pela irrelevância ao ponto de entrarmos num processo de desaculturação. Uma variante das invasões bárbaras, desta vez sem Godos, Visigodos ou Atila, o Huno; o barbarismo chega de forma pacífica e muito voluntária, por redes wi-fi, aplicativos e gadgets eletrônicos para, como diria Neil Postman, nos “divertirmos até morrer”.[5]

 

___________
[1] Cf. As fronteiras da técnica, Agir, 5ª edição, 1963, p. 7.
[2] Cf. Michele Federico Sciacca, L’oscuramento dell’intelligenza, Marzorati, Milano, 1970, p. 64.
[3] Cf. Eichmann em Jerusalém, Companhia das Letras, 1999.
[4] Cf. Modernidade líquida, Zahar, 2001.
[5] Cf. Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business, Penguin Books; 20th. Anniversary edition, 2005.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anti-spam device *