Silêncio e irrelevância

Pelo apoio pessoal a Bolsonaro, o diretor de teatro Roberto Alvim foi defenestrado do Sesc. Já Marco Antonio Vila, pelo motivo contrário, defenestrado da Jovem Pan. Ambos são vítimas da polarização política; são os lados de uma mesma moeda.

Alvim fez sua carreira no meio artístico que hoje o renega. Embora ande atualmente com papagaios de pirata, talvez ainda não tenha percebido que fora acolhido do outro lado somente pela sua adesão política, não pela sua arte — que naturalmente seria classificada “degenerada” e “subversiva” por puritanos que ainda se escandalizam com pessoas peladas e pinturas da Renascença. Com seu expurgo do Sesc, Alvim descobriu que, na esquerda, um artista é aquilatado pela sua adesão (ou silêncio) às causas ideológicas. Infelizmente ele há de descobrir que não é diferente no seio direitista, onde também vigora a primazia do homem-político, na qual as artes servem apenas como meros instrumentos ideológicos.

No caso de Marco Antonio Villa, que se tornou famoso pela verve que embalou os anti-petistas na época do Mensalão, parece que o historiador não se deu conta de que o brasileiro é, historicamente, adesista. O destino de vozes dissonantes sempre foi o ostracismo, a irrelevância. Villa reivindica uma independência que não tem lugar na sociedade brasileira. Quem não adere a uma causa ideológica é um traidor ou, na melhor das hipóteses, um “isentão”.

Ao longo da história, o homem criou diversas formas para discutir ideias e partilhar conhecimentos: discussões públicas sobre os cantos de Homero ou sobre os rumos políticos na Grécia Antiga, passando pelas disputationes das Universidades Medievais, até chegarmos nas sociedades de debate da Londres do século XVIII, que deram origem aos parlamentos atuais. O homem, enfim, num longo processo de desenvolvimento social, aprendeu a comunicar suas paixões, seus dramas e suas descobertas. Mas regrediu, afinal, hoje temos apenas o Leviatã da ideologia, que engole todos os que não se conformam com os tiranos das redes sociais.

Não há caminho do meio, nem respeito às opiniões alheias. O que se propõe é apenas negar, sem critério algum, as ideias rivais, prescrevendo uma espécie de antídoto a um mal existente.

A quem tem algum repúdio às tiranias ideológicas, talvez tenha restado apenas o silêncio e a irrelevância.

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