A incredulidade que escraviza

“O segredo deste truque está num pedaço de linha”. A tática de Penn e Teller para enganar o público é ousada: eles revelam o segredo no início e no final do número. Mas tudo é tão descaradamente bem feito que a dúvida sempre permanece: “será mesmo que ele manipula a bola vermelha com aquela linhazinha?”. Para dirimir a dúvida, Penn puxa a linha e a corta com uma tesoura. Mas será? A reação de incredulidade é a mesma ocorrida nos movimentos ideológicos de massa. O truque todo está ali: a manipulação de fontes, as citações fora de contexto, as informações absurdas com ares de sabedoria perene. Mas a vítima já foi capturada quando aceitou a existência de apenas uma fonte autêntica de interpretação dos fatos: o próprio charlatão que se afirma como autoridade superior.

Tudo é sempre complexo demais para se compreender sem sacrifícios, renúncias e estudos exaustivos. Por isso é preciso delegar a autoridade ao discípulos que irão repetir os mesmos ensinamentos como se fossem grandes revelações. Tudo vai se erguendo como uma fé religiosa, com misticismos e profetas portadores de grandes segredos que só podem ser revelados aos poucos, enquanto os sectários passam por intermináveis preparações. Tudo o que está fora desse círculo de autoridade é considerado fraudulento e prejudicial.

Um movimento de massas, portanto, exige do seus membros a total lealdade ao líder e à ideia que os reúne: são as únicas fontes de interpretação dos fatos. Além disso, fundamentam-se nas ambiguidades, por isso são intermutáveis uns nos outros. O inimigo de hoje pode ser o amigo de amanhã e vice-versa. Ou mesmo os ideais podem se transformar em outros ou até mesmo no seu contrário.

A ideologia herdou todas as trapaças do hermetismo do século XVIII. Como os charlatões e ocultistas com suas bolas de cristal e borras de café no fundo da xícara, os ideólogos modernos utilizam uma linguagem místico-simbólica, baseada num fluxo de informações incontrolável, com significados e alusões infinitos e contraditórios. Então, diante de um paradoxo causador de uma desarmonia psicológica, uma das tendências é simplesmente negar as informações que estejam em conflito com nossos interesses, e buscar justificativas para essa negação junto a grupos que partilham dos mesmos ideais. Neste ponto, as vítimas já beiram a um colapso nervoso, como diagnosticou o psiquiatra Leon Festinger com sua teoria da dissonância cognitiva.

Exige-se também o auto-sacrifício: é preciso abandonar planejamentos pessoais para inserir-se na causa, doar-se totalmente a ela. A vida parece não fazer mais sentido. É preciso apartar-se do mundo, da família, da sociedade. Também utilizam uma linguagem própria, cheia de slogans e, sobretudo, sentenças categóricas. Ergue-se como uma espécie de religião, com suas doutrinas, seus autores sagrados, autoridades sacerdotais, oráculos do mundo, um panteão de heróis e santos e, não poderia ser diferente, uma lista de hereges, inimigos, traidores e infiéis que deixaram de reconhecer o valor da causa que outrora defenderam e por isso devem ser expurgados.

Mas dentre todas essas características, há uma extremamente notável: jamais fariam uma auto-crítica ao ler os parágrafos anteriores porque, movidos pela projeção, identificam sempre os seus antagonistas na descrição de suas próprias condutas.

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Imagem: Penn and Teller invisi-ball thread

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