Espelho, espelho meu…

O domingo, dia 26 de maio, foi um marco histórico no Brasil [1]. Uma mulher de 38 anos quebrou barreiras, celebrando consigo mesma o primeiro casamento sologâmico. Olhando para seu espelho, revestida de gala, prometeu amor eterno a si mesma…

Nada mais atual, pois afinal de contas, o matrimônio foi reduzido a um esqueleto, é mero objeto econômico ou bandeira política. A nupcialidade do homem tem um sabor demasiado eterno para o materialismo gnóstico de nosso tempo.

Foi abolido o outro, vivemos completamente sozinhos em nosso paraíso artificial. Orgulhosamente infecundos, não temos família. Ela é um estorvo. Condenamos o amor ao ostracismo, porque amar, como dizia Maria Zambrano, é “viver disposto ao voo”, e  temos medo das alturas. Fugimos em massa ao Everest para tentarmos escapar de sua vertigem.

Vivemos no sonho romântico de Narciso. Enamorados de nós mesmos, condenados voluntariamente à profunda miséria.  “Àquele que de nada necessita, tudo lhe falta. A miséria do homem que se basta, do espírito saturado de si mesmo”, dizia Marie Nöel.

Ao ‘homem novo’ – criatura parida artificialmente pelas ideologias  – tudo lhe falta, porque ele se basta. Por detrás de toda a pompa e circunstância, ele é um pobre miserável!

[1].Mulher se casa com ela mesma em Minas Gerais e atrai seguidores da ‘sologamia’

Fotografia: Bitar & Paiva Fotografia/Instagram

Um comentário sobre “Espelho, espelho meu…

  1. Acho que é mais sobre poder ser rainha da festa mesmo sem achar um rei digno. É essencialmente sobre festa mais do que sobre casamento, talvez uma resposta para o excesso de expectativa, ainda atual, sobre o fato de que se casar seja um evento necessário na carreira de uma moça decente. Podia chamar de “minha celebração de solteirona” mas é que solteirona denota algo com falta de sucesso. (eu me casei sem festa e também não foi lá muito adequado socialmente, as pessoas não gostaram.)

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