Fake news: a calúnia como entretenimento

No final da década de 60, o filósofo canadense Marshall McLuhan já preconizava um dos problemas que vivemos hoje em dia: o dilema entre a nossa exigência de privacidade e o direito coletivo à informação. McLuhan ficou conhecido pelo talento para pressagiar inovações tecnológicas, mas nunca imaginou que as pessoas tornariam as suas intimidades públicas de maneira voluntária. No entanto, previu que os meios de comunicação digitais produziriam um fluxo de informação que seríamos incapazes de absorver. Hoje, com a superabundância de canais de difusão, estamos sempre informados, em tempo real, sobre os mais variados assuntos: da situação conflituosa do Oriente Médio à nova política tributária adotada pelo governo; da probabilidade de chuva num dia ensolarado à alta nos preços dos remédios para enxaqueca – e jamais ficaremos alheios às selfies dos parentes com o Mickey Mouse na Disneylândia. Precisamos admitir que há um consumo extraordinário da nossa atenção para coisas inúteis.

Mas com essa quantidade infinita de informações, a tendência é de que a qualidade diminua e tudo se torne banal. Devido a escassez de tempo, acabamos condicionados a obter informações instantâneas, sem ter a oportunidade de refletir sobre elas. O resultado é uma certa vulgarização da cultura, onde na maioria das vezes circulam apenas informações superficiais, afinal, estamos na época dos compêndios e dos best of, das sinopses e das opiniões sintetizadas de youtubers sobre temas complexos que mereceriam uma atenção particular. Assim, as notícias e os debates na imprensa tornam-se irrelevantes e são substituídos por meras impressões e emoções pessoais que justifiquem algum engajamento político, o que faz da fake news não apenas um resultado lógico, mas algo desejável para reafirmar essas mesmas impressões e emoções que venham justificar uma tomada de posição diante de fatos concretos.

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