As utopias ideológicas do Pica Pau

Ontem a nossa intrépida ministra Damares deu a sua contribuição para a história da filosofia. Fazendo do limão, limonada, ela disse estar há mais de 30 anos criticando um sujeito arrogante, egoísta, mal-criado, desobediente e malvado como o Pica Pau. E não amacia a bronca para aquele marinheiro tabagista e misógino conhecido como Popeye. Talvez tenha passado despercebido o fato de que a nossa burlesca ministra dos Direitos Humanos seja uma precursora da tese do colonialismo ideológico das histórias em quadrinhos dos marxistas Ariel Dorfman e Armand Mattelart, que ficaram famosos nas escolas de comunicação dos anos 80 e 90 pela crítica à ideologia capitalista nas historinhas do Pato Donald.

O assunto é, de fato, tão cômico quanto a própria origem da palavra ideologia, que entrou para a história de uma forma bastante singela. Antoine-Louis-Claude Destutt (1754–1836), o conde de Tracy, cunhou o termo para se referir a uma nova ciência que havia criado. ‘Ideologia, a ciência das ideias’. Tudo ia mais ou menos bem, Desttut de Tracy já havia escrito seu tratado inicial em 4 volumes e a sua recém-criada ciência estava em crescente difusão na França pós-revolucionária. Eis que surgiu Napoleão no horizonte do século, como o Vesúvio no horizonte de Nápoles, para usar a imagem de Victor Hugo. O genioso imperador transformou a tal nova ciência em arma de retórica política. Depois da malfadada campanha Russa, Bonaparte precisava de um inimigo interno para satisfazer a sua personalidade belicosa: atacou Desttut de Tracy e seus discípulos, taxando-os de ideólogos, e classificando a doutrina que propagavam como “abstrata, sem relação alguma com a realidade prática nem com a vida social e política”.

Talvez Maquiavel tenha sido o primeiro a sugerir uma distinção entre a realidade e as ideias políticas, que seria reinterpretada por Hegel para estabelecer seu conceito de “consciência cingida”, em suma, uma separação da consciência em relação a si mesma no curso do processo histórico. Daí Karl Marx tira o seu conceito de “falsa consciência” que, num processo de alienação, oculta a realidade social, visando os interesses das classes dominantes.

Infelizmente, a história não acabou. Muita gente ainda viria a acrescentar um novo significado para a palavrinha que Desttut de Tracy tentou emplacar como uma nova ciência: Lênin, Lukács, Habermas, Marcuse, Scheler, Mannheim, Sartre… e, embora tenha muita gente questionando que a terra é circular, o mundo deu suas voltas para, ironicamente, um tema tão caro aos marxistas voltar com força no discurso um tanto confuso e caricato de uma pastora evangélica engalfinhada num governo de direita.

No entanto, a situação grotesca em que vivemos só poderia ser descrita como uma “consciência cingida” por ideias “abstratas, sem relação alguma com a realidade prática nem com a vida social e política”, uma verdadeira “falsa consciência” de quem já não consegue mais distinguir fantasia e realidade. E o delírio das utopias ideológicas é, de fato, o traço de união entre a direita e a esquerda.

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