Entrevista: Martim Vasques da Cunha

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O autor de A tirania dos especialistas e O Contágio da mentira, fala sobre o futuro da democracia, das ameaças ideológicas e também do seu novo curso: O Grande Reset.

Por Maurício Avoletta

Os intelectuais parecem ter perdido o contato com realidade, com as pessoas de carne e osso, para se tornarem meros idealistas. Isso seria um sinal de que, não apenas a “poeira da glória” não se dissipou, mas está ainda mais densa?

Não é que “a poeira da glória” se tornou mais densa. Ela se transformou na peste, simbolizada atualmente pelo coronavírus que aflige o Brasil, levando-o ao colapso. Quando usei a expressão para meu livro de mesmo título – inspirado em uma crônica escrita por Otto Lara Resende –, pensava mais em termos similares ao Eclesiastes, no sentido de que, no mundo dos intelectuais, tudo não passava de mera vaidade e de que não havia nada de novo sob o sol. Infelizmente, seis anos depois da publicação do livro, tudo o que narrei e diagnostiquei no passado cultural brasileiro se transformou em uma realidade mortal:  o “círculo dos sábios” que descrevo em A Poeira da Glória, independente de ser de esquerda ou da direita, finalmente levou o Brasil a um gigantesco jardim das aflições.

No seu livro, A Tirania dos Especialistas, você diz que a política se tornou uma espécie de autopunição. O que isso quer dizer?

A autopunição da política surge porque a atividade de dialogar minimamente com a sociedade se tornou trágica por princípio. O triunfo da modernidade na nossa forma de pensar – que acabou por resultar no “racionalismo na política” que infectou os nossos especialistas sanitários com a peste da covid-19 – ocorre principalmente por causa da substituição do Bem Supremo por um Bem Comum imanente, incapaz de entender as demandas do transcendente. Isto refletiu no fato de que o homem, em especial o homem político, trocou a liberdade interior, fundamento de todas as outras liberdades, por uma liberdade exterior que funciona de maneira deficitária com as suas frágeis instituições democráticas. A tragédia da política surge desse impasse, a meu ver muito difícil de ser resolvido em termos práticos, exceto se houver uma conversão de coração que proponha uma revolução interior.

Mas você acha que a democracia está em crise ou ela já acabou e nem percebemos?

Não é uma questão da democracia estar em crise ou em fase terminal. O problema é que ela foi traída. E essa traição ocorreu justamente porque as elites espiritual, intelectual e financeira perderam por completo a noção dos seus papéis na formação da sociedade. Ao perder isso, elas decidiram controlar a interioridade do ser humano com aquilo que lhe é mais precioso: o conhecimento. Todas as moléstias democráticas surgem deste ponto – do problema do voto até o funcionamento correto das instituições públicas. O conhecimento humano é importantíssimo não somente porque ele te dá poder (como fala a célebre definição de Francis Bacon), mas porque ele ajuda você a entender as suas limitações como ser humano, como criatura que é dependente de um poder superior. A democracia é o reconhecimento desta limitação intrínseca a nós. Contudo, as elites a que me referi acima preferiram usar apenas o primeiro lado do conhecimento, que é o da revolta, o da hubris contra a própria estrutura da realidade. Se por um lado temos as vantagens evidente do progresso tecnológico, por outro temos a ausência deste mesmo progresso no aspecto ético, para citar o princípio que ronda a obra do filósofo inglês John Gray.

Você acha que esse maniqueísmo na política ainda tem vida longa? Quanto tempo teremos que aturar os messias e os candidatos a profetas?

Este é um mal inerente a qualquer sociedade, já que, pelo menos do surgimento do Cristianismo, há a sua contrapartida sinistra que é a da imaginação apocalíptica. Trata-se de uma perversão do livro bíblico de mesmo nome, que lida com a denúncia simbólica e metafísica dos mecanismos do poder humano. Contudo, atualmente, essa imaginação luta a favor desses mecanismos para impor um novo sistema de poder no qual o homem fica à mercê de um conhecimento destinado a “poucos felizes”, e passa a ficar desestabilizado espiritualmente em função de um evento mágico que ninguém sabe quando acontecerá, se pondo à mercê de um líder que seria o possuidor desta mensagem pseudomisteriosa. Enfim: vamos ter que atuar esse pessoal enquanto estivermos vivos (risos).

Agora, com a ressuscitação escatológica de Lula, você acha que teremos uma guerra ainda mais acirrada dos revoltados do subsolo contra a legião da revolta das elites?

A revolta das elites do PT e a revolta do subsolo liderada por Antonio Donato e Olavo de Carvalho, tendo como parasita institucional esse verme chamado Jair Bolsonaro, são duas faces modernas dessa imaginação apocalíptica de que falamos há pouco. Lula é tão perigoso quanto Bolsonaro; ele só não teve a oportunidade de lidar com uma pandemia para destruir o povo brasileiro. A peste da Covid-19 mostrou agora que vivemos em permanente contágio da mentira – e essa guerra tende a infectar qualquer cidadão que não saiba mais o que é o fato e o que é ilusão.

Vamos para um ambiente mais apocalíptico: você acredita que é possível vivermos uma nova era de tiranias fraticidas?

Isso tem a ver com um conceito que articulei em A Poeira da Glória: o do totalitarismo cultural. Apesar da política deliberadamente omissa do governo federal em relação à gravidade da pandemia, acredito que, depois que a peste ir embora (porque ela vai, é da natureza dela), não teremos mais uma era de tirania que mata o seu corpo, mas sim que destrói a sua alma. Você vai capitular porque a sociedade o pressionará que abandone os ditames da sua consciência. É o que acontece agora com o retorno de Lula: tenho a mais absoluta certeza de que direitistas arrependidos por terem colaborado, de uma maneira ou outra, com o surgimento do bolsolavismo, votarão sem hesitar em Lula numa eventual disputa eleitoral em 2022. O Brasil é o império da mentalidade binária, que frutifica ainda mais o totalitarismo cultural, e que, no fim, o que vai sobrar para o cidadão comum, que quer saber mais ou menos o que ocorre no seu país, é ler o estilo rococó datado de um Itamar Vieira Júnior ou ouvir a retórica a lá Alborghetti dos discípulos de Olavo de Carvalho, espalhando mentiras a torto e direito.

Em seu novo curso, você se dedica ao – temido por uns e idealizado por outros – Great Reset. Como entender esse leviatã sem se tornar idealista ou conspiracionista? É possível adotar uma via média entre as duas posições ou há mais algum outro caminho?

O Great Reset [O Grande Recomeço] é uma teoria conspiratória que antes era um fato. O plano existe, foi elaborado pela elite globalista e está sendo posto em prática com essa série de lockdowns inexistentes, especialmente no Brasil, cujas imprensa e intelligentsia são extremamente suscetíveis a este argumento metido a progressista. Contudo, o bolsolavismo instrumentalizou esse evento grave para aumentar ainda mais o seu projeto de poder totalitário e para incentivar ainda mais o extermínio da população. Esmagado entre esses dois monstros, o que proponho é um retorno a uma via do meio, que seria a de uma mistura da virtude republicana que sempre existiu, de Cícero aos Pais Fundadores dos EUA; a noção de um “cosmos litúrgico”, na qual a vida deve ser vista como um milagre pleno de mistérios e maravilhas; e a comunidade da “bem-aventurança”, onde as pessoas se unem por laços afetivos e entendem que a justiça e o perdão das dívidas (morais e financeiras) são meios efetivos para resolver as grandes crises civilizacionais, como a que estamos vivendo agora. E mais não digo porque quero que comprem o curso (risos).


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Curso: O perigo do Grande Reset – Martim Vasques da Cunha (clique pra saber mais)


OK, não vamos dar spoilers do curso. Quem ficar interessado vai poder clicar em algum link aqui em cima. Mas será que a reação a esse tipo de política abominável não pode levar muita gente a seguir o movimento contrário, aumentando ainda mais o radicalismo?

Sem dúvida. Mas, por outro lado, acredito sinceramente que o ser humano é guiado pela soberania do Bem, apesar da revolta inerente na sua estrutura – aquilo que chamamos de “pecado original”. Há o perigo do radicalismo, mas também podemos ter as surpresas de que o homem comum tem a noção de que pode mudar o seu destino, por mais sombrio que ele pareça ser.

Então você acha possível alcançar a liberdade interior que comenta no seu livro A Poeira da Glória, mesmo numa sociedade que não preza mais pela verdade e nem compreende o que é, de fato, a liberdade?

Claro que sim! A liberdade interior é a que fundamenta todas as outras liberdades. Mas ela não é um direito: é uma conquista – e, muitas vezes, isso dura uma vida toda para ser alcançada. O problema da revolta moderna é acreditar que a liberdade exterior – a que movimenta nossas leis e instituições democráticas – é a única que existe. Se colocassem na equação o aspecto da interioridade, que é o primeiro passo para uma verdadeira transcendência, a nossa sociedade começaria a rumar um caminho alternativo. Mas como fizemos a opção majoritária pela exterioridade, sem entendermos a tensão que há entre conhecimento e ignorância, o resultado é a peste moral (e mortal) que hoje vivemos.

Já imagino a resposta, mas mesmo assim vou fazer a pergunta: ainda há alguma esperança ou tudo já está perdido?

A esperança existe e não é um erro. Ela atua no mundo, mas precisamos estar abertos aos seus milagres. Como disse o falecido David Graeber, numa frase que é usada como mote no último documentário de Adam Curtis, Can´t Get You Out Of My Head – uma obra-prima, aliás! –, “A verdade oculta deste mundo é que é apenas algo a qual fazemos, e poderíamos fazê-lo facilmente de um modo diferente”. Temos todos os instrumentos disponíveis para mudar nossa situação catastrófica. Precisamos apenas redescobri-los e usá-los não só com a devida sabedoria, mas principalmente com a devida humildade.

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