Por mais antítese e menos tese nas artes

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por Arthur Acosta Baldin

Ao longo de sua história, a arte sempre teve muitas funções, dentre as quais, a função de tocar no lado mais sensível do seu espectador. Essa é a única ciência, na qual o homem faz uso de meios irracionais para mostrar à sociedade problemas estruturantes. Segundo Bárbara Heliodora, em seu livro Caminhos do Teatro Ocidental, ao falar sobre a origem da Tragédia, ela cita: “Não existe, no entanto, nada mais confuso e duvidoso do que o nascimento da Tragédia, como já vimos, mas parece correto partir da valorização do indivíduo no processo social que levou a democracia grega e a separação entre estado e religião como elementos determinantes para o aparecimento da arte dramática”. Tal apontamento de Heliodora nos mostra o quanto as artes, e principalmente as artes da cena, são uma das pedras angulares da organização política de nossa sociedade. Embora soe um tanto arrogante, não deixa de ser verdade afirmar que as artes apontam, sem medo, para questões que devem e precisam ser melhoradas.

Apesar da professora Heliodora se referir ao teatro grego, observamos fenômenos semelhantes em Shakespeare, Moliére e Maquiavel, no início do período moderno, em Bertolt Brecht no período de seu teatro épico e em autores de teatro contemporâneo. Há quem diga que Brecht possuía uma cosmovisão limitada, justo por se posicionar politicamente e trazer uma visão pessoal para sua obra. No entanto, apesar do autor cometer alguns excessos, quando traz, por exemplo, um recorte muito ideológico para seus textos, esse juízo nos parece injusto, dado o número de pessoas que consideram mais interessante entender a revolução proletária através de Brecht do que através do próprio Karl Marx. Ao contrário de Marx, Brecht usa a poesia e as artes para tocar no sensível. Outra característica muito marcante em seu teatro é a dialética – a contradição entre conflitos teóricos.

Na contramão de Brecht, há uma ala dentro das artes contemporâneas, que dão muito mais ênfase às suas preferências partidárias do que às suas preferências estéticas. Tal abordagem, se não for bem trabalhada, pode se tornar um problema, comprometendo a experiência do espectador com o sensível. Na maioria das vezes, isso ocorre quando a obra procura informar o espectador, privando-o de reflexões mais profundas acerca do que está sendo abordado. É claro que um artista pode se posicionar politicamente em suas obras, pois fazer arte já é uma atitude política. No entanto, como já mencionado no início do texto, a Arte é a única ciência que se utiliza de meios irracionais para afetar seu espectador e promover mudanças estruturantes em nossa sociedade. Tendo em vista essa caracteristica, quando a Arte dá protagonismo às questões partidárias, excluindo o sensivel, ela pode dificultar a criação de um elo um afetivo entre o espectador e a obra deixando assim de cumprir com um de seus principais objetivos.

Antunes Filho foi um encenador que conseguiu expressar seus posicionamentos políticos sem perder a experiência com o sensível. Infelizmente, nem todos conseguiram alcançar tal maestria. Contemporâneos à Antunes, muitos grupos quiseram abraçar opiniões partidárias, sem trazer a questão dialética ou o elemento sensível para suas produções. Ainda hoje, observamos posturas parecidas em grupos com visões de extrema-esquerda, mas também em produtoras de conteúdo de extrema-direita. Estas, com o intuito de desconstruir toda a produção artística feita nos últimos anos – pondo músicas de protesto dos anos 70 e produções de massa na mesma classificação, sem considerar a conjuntura histórica de seus períodos, – fortalecem uma narrativa muito simplista da realidade. Diferente das obras de Brecht e de Antunes, tais produções estão mais preocupadas em ocupar um espaço na massa, do que em proporcionar aos seus espectadores o contato com o sensível, para que estes possam fazer, por eles mesmos, uma leitura de mundo.

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Arthur Acosta Baldin é ator, professor de teatro e membro da Mirante Cia. de arte desde 2018.

 

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