Freak Show

O homem novo está sempre entediado. Fabricado ideologicamente para o déficit de atenção, precisa de constante estímulo para manter-se desperto e de múltiplas drogas para conseguir dormir. Desconhece a vida real fora do laboratório. Daí o papel de primeira linha do Freak Show em nossa subcultura: Dopar-nos. Lo Spagnoletto já conhecia tal bizarra inclinação. Das Mulheres barbadas à chuva de palavrões para defender os bons costumes… … Continuar lendo Freak Show

Bomba de efeito moral

Como evitar que os sem-teto invadam os locais públicos? Gás de pimenta, bomba de efeito moral? Faz um tempo que a SNCF [1], companhia ferroviária francesa, descobriu a resposta a tal pergunta durante uma reforma na estação de Rennes. Trata-se da velha e boa música. Mas tem que ser música clássica! Não pode ser hard rock, pop ou rap, tem que música ‘erudita’. Tem que ser Vivaldi, … Continuar lendo Bomba de efeito moral

Flores do Mal

Em 30 de junho de 1845, Baudelaire escreveu uma carta de suicídio. Ele tinha apenas 24 anos. Tentativa infrutífera é verdade, mas aparentemente muito lucrativa. Já que acabam de leiloar a trágica carta por nada menos que 234 mil libras esterlinas [1]  Na era pós-Poética, escondida a Palavra, desprezada a Beleza, o poeta só vale como personagem de folhetim. Depois da banalização do Mal, já não … Continuar lendo Flores do Mal

Teens

Querem me provar errado, me chamam exagerado, dizendo que ainda há interesse por literatura no Brasil. E num acesso de raiva, me dizem que a literatura está viva:  – Mas as novas gerações leem, as crianças leem, os adolescentes também leem. Veja os dados, como certa famosa autora brasileira, escritora de livros infanto-juvenis vendeu 2 milhões de livros. E contra fatos não há argumentos – me … Continuar lendo Teens

O único remédio para o desemprego, por Simone Weil

“O único remédio para o desemprego é construir. Mas construir o quê? A única coisa que podemos construir é uma civilização. Nova, comparada ao terrível caos que terminou em pesadelo. Antiga, pelo espírito. Viva. Se nós pudermos…” (Simone Weil. ÉCRITS DE LONDRES et dernières lettres) Continuar lendo O único remédio para o desemprego, por Simone Weil

Eterno Labirinto, por Cristina Campo

“A arte de hoje é, em grandíssima parte, imaginação, isto é, contaminação caótica de elementos e de planos. Tudo isso, naturalmente, se opõe a justiça (que de fato não interessa a arte de hoje). Se, portanto, a atenção é espera, aceitação ardente, impávida do real, a imaginação é impaciência, fuga no arbitrário: eterno labirinto sem fio de Ariadne. Por isso, a arte antiga é sintética, … Continuar lendo Eterno Labirinto, por Cristina Campo

Não vou canonizar Baudelaire, por Leonardo Castellani

“Não vou canonizar Baudelaire, certamente não é uma leitura para moças que se alimentam com sanduíches e novelas norte-americanas, nem para moças em geral, nem para beatos, nem para burgueses, nem para burros, nem para sacerdotes não advertidos, nem para homens sem percepção artística, nem para a imensa paróquia do moralismo e da ortodoxia infantil. Espreitar o abismo não é para todos; e o abismo … Continuar lendo Não vou canonizar Baudelaire, por Leonardo Castellani

Um partido político, de Simone Weil

“Um partido político é uma máquina de fabricar paixão coletiva. Um partido político é uma organização construída de modo a exercer uma pressão coletiva sobre cada um dos seres humanos que são membros dele. O fim primeiro (e, em última análise, único) de todo partido político é seu próprio crescimento, sem limite. Tendo em vista essa tríade de características, todo partido é totalitário, potencialmente e em aspiração. … Continuar lendo Um partido político, de Simone Weil

A Política, a mais cruel divindade

Nosso problema não é tanto a demonização da política, mas sua divinização. Toda a interioridade do homem foi absorvida por essa idolatria, por isso a turba informe pode clamar: Eu sou o Lula. Já havia alertado Simone Weil: “A atual idolatria do totalitarismo não pode encontrar obstáculo senão na vida espiritual autêntica. Se habituamos as crianças a não pensar em Deus, se tornarão fascistas ou … Continuar lendo A Política, a mais cruel divindade

A Atenção e a Imaginação, de Cristina Campo

“A atenção é o único caminho ao inexprimível, a única estrada ao mistério. De fato, está solidamente ancorada no real, e somente por alusões escondidas no real se manifesta o mistério. Os símbolos das Sagradas Escrituras, dos mitos, se vestem das formas mais concretas desta terra: da Sarça ardente ao Grilo Falante, da Maça do Conhecimento às Abóboras de Cinderela. Diante da realidade, a imaginação … Continuar lendo A Atenção e a Imaginação, de Cristina Campo

Imbecilidade artificial, por Fabrice Hadjadj

“Eu sou tentado a pensar que o horizonte dos fabricantes de computadores não é tanto a inteligência, mas a imbecilidade artificial. Porque o imbecil não é aquele que consente ao estupor, mas aquele que tem resposta para tudo. Incapaz de se abrir ao que lhe transcende, ao outro, ao acontecimento, ele mói tudo no seu pequeno sistema. Ora, um sistema informático sabe muito bem encerrar-se … Continuar lendo Imbecilidade artificial, por Fabrice Hadjadj

A geração Facebook

Basta ligar o computador – ou o smartphone ou sabe-se lá mais o quê – para se deparar com estas massas fantasmagóricas digladiando-se virtualmente, num espetáculo tão patético como desumano. Eis a geração Facebook! Mas afinal, o que se ganha quando se faz o mal aos outros? Já Simone Weil punha tal questão e respondia “Cresce-se. Estende-se. Enche-se um vazio em si criando-o nos outros”. … Continuar lendo A geração Facebook

Qual é o teu tormento?, de Simone Weil

“A plenitude do amor do próximo é simplesmente ser capaz de lhe perguntar: “Qual é o teu tormento?”. É saber que o infeliz existe, não como unidade numa coleção, não como um exemplar da categoria social etiquetada de “infeliz”, mas enquanto homem, exatamente semelhante a nós, que foi um dia ferido e marcado com uma marca inimitável pela infelicidade. Para isso é suficiente, mas indispensável, … Continuar lendo Qual é o teu tormento?, de Simone Weil

Jane Austen e a tragédia da fama

Poucos escritores conseguiram – num tempo anti-literário como o nosso – tão grande popularidade como Jane Austen. Ela conseguiu ser best seller, ela ficou famosa. Mas sabiamente já alertava Gustave Thibon: “A fama tem asas rápidas, mas voa na altura do solo. Se prende ao lado mais superficial e mais conforme ao gosto do dia, ao mais vulgar e mais escandaloso do gênio que ela … Continuar lendo Jane Austen e a tragédia da fama

Baudelaire e a Possessão, de Fabrice Hadjadj

O poeta escreve no seu diário íntimo: “A maior astúcia do Diabo é nos persuadir de que ele não existe”. Igualmente a possessão mais diabólica não é aquela totalmente histérica, mas a sentimental: “Vede George Sand. Ela é especialmente, e mais que qualquer outra coisa, uma enorme besta, mas está possuída. É o Diabo que a persuadiu a confiar no seu bom coração e no seu bom … Continuar lendo Baudelaire e a Possessão, de Fabrice Hadjadj

Propaganda e publicidade, Georges Bernanos

“Imbecis, não vedes que a civilização das máquinas exige de vós uma disciplina cada dia mais estrita? Ela exige em nome do Progresso, isto é, em nome de uma concepção nova de vida, imposta aos espíritos por sua enorme máquina de propaganda e publicidade. Imbecis! Compreendais, portanto, que a civilização das máquinas é ela mesma uma máquina, que todos os movimentos devem ser, cada vez … Continuar lendo Propaganda e publicidade, Georges Bernanos

Fake News, por Simone Weil

“O público desconfia dos jornais, mas sua desconfiança não os protege. Sabendo em geral que um jornal contém verdades e mentiras, ele divide as notícias anunciadas entre estas duas rubricas, mas ao azar, de acordo com suas preferências. Está assim entregue ao erro. Todo mundo sabe que, quando o jornalismo se confunde com a organização da mentira, constitui um crime” – Simone Weil, L’enracinement. Continuar lendo Fake News, por Simone Weil

Curiosidade mórbida

A contemplação estética é algo completamente desconhecido ao nosso tempo. Deixar-se capturar pela beleza de uma Pintura ou a solenidade de uma escultura, deixar-se seduzir pelos versos de um Poema, é inadmissível. A Arte tem que ser útil, política ou monetariamente. Ou é agente ideológico ou investimento financeiro. Deve ser reduzida a mero instrumento de reeducação social. Continuar lendo Curiosidade mórbida

O ditador, de Georges Bernanos

“O ditador não é um chefe. É uma emanação, uma criação das massas. É a Massa encarnada, a Massa no seu mais alto grau de maldade, no seu mais alto poder de destruição. Assim, o mundo irá, num ritmo sempre acelerado, da democracia à ditadura, e da ditadura à democracia, até o dia que…” Georges Bernanos, La France contre les robots Continuar lendo O ditador, de Georges Bernanos

Estruturas de pecado, de Fabrice Hadjadj

“A expressão é freqüentemente usada, mas raramente compreendida nas suas implicações. A primeira é que uma tal estrutura não é o fruto de uma só decisão, mesmo comum. Ela não corresponde a uma simples instituição humana, porque está além de seus atores. A isso se pode imputar a perda de visibilidade e de responsabilidade que implica a divisão burocrática do trabalho. Mas isso vai ainda … Continuar lendo Estruturas de pecado, de Fabrice Hadjadj

Análise da Obra “Casti connubii”, de Giovanni Gasparro

Ao realismo da obra, nos traços da criança com seus olhos melancólicos e as bochechas rosadas, segue algo de quase surreal com as múltiplas mãos que tocam e cercam a criança. É impossível não captar a ironia do título desta obra, com a qual o artista venceu o “Bioethics Art Competition” da Unesco, em 2013. O título da obra, em latim, faz referência ao “casto … Continuar lendo Análise da Obra “Casti connubii”, de Giovanni Gasparro

Análise da Obra “Il sacrificio di Isacco – Il sacrificio sospeso”, de Giovanni Gasparro

Trata-se de uma das obras do artista realizadas para a Basílica de São José Operário de L’Aquila – cidade arrasada pelo terremoto de 2009. O tema é o sacrífico de Isaac e a suspensão da imolação. Isaac aqui não é um jovem rapaz, mas um homem adulto – ao contrário da opção de outros grandes pintores como Rembrandt e o próprio Caravaggio. O corpo de … Continuar lendo Análise da Obra “Il sacrificio di Isacco – Il sacrificio sospeso”, de Giovanni Gasparro

Giovanni Gasparro

Giovanni Gasparro é um jovem pintor italiano, originário de Bari, que apesar de nem sequer ter quarenta anos, já é classificado como o último caravaggesco. Certamente é herdeiro de Caravaggio – às vezes da fase napolitana do mesmo – e da expressão pictórica italiana, cheio desta particular intensidade teatral que vive e pulsa a Itália do sul. Do profano ao sacro, do clássico ao contemporâneo, … Continuar lendo Giovanni Gasparro

Crepúsculo

Somos atormentados pelo tempo, ele atrapalha nossos planos. Ele nos compele a contemplar que apesar de tudo ainda somos meros humanos. Esses cabelos brancos não incomodam porque são feios, mas porque sua mera visão me obriga a enfrentar o tempo. “Não há nada trágico em ter 50 anos, a não ser que você tente ter 25”, diz Joe Gillis a Norma Desmond – a decadente estrela – no clássico de Billy Wilder, “O Crepúsculo dos Deuses”. Continuar lendo Crepúsculo

Dom Quixote, por G.K. Chesterton

“Dom Quixote é parte de todos nós, e a parte que sempre permanecerá e dará muito trabalho a qualquer pessoa que quiser nos atar definitivamente a qualquer constituição política ou filosofia sintética. O cavaleiro figura no romance de Cervantes como inimigo daquela civilização que pensa que tudo é melhor se confiado a uma instituição. Na história, ele é o último indivíduo; ele tem o incorrigível … Continuar lendo Dom Quixote, por G.K. Chesterton

O homem clássico, de Dietrich von Hildebrand

“O homem clássico está preocupado com problemas autênticos. Ele reconhece o perigo do pecado, percebe sua necessidade de salvação, conhece sua fraqueza e fragilidade de sua natureza, está repleto de anseio pela verdade, a comunhão, o amor, sente a insuficiência daquilo que é criado, aspira pelo absoluto, e está “inquieto enquanto não repousa em Deus”. O homem não-clássico está absorvido por problemas ilusórios, problemas originados … Continuar lendo O homem clássico, de Dietrich von Hildebrand

A Civilização das Máquinas, de Georges Bernanos

A Civilização das Máquinas é a civilização da quantidade oposta àquela da qualidade. Os imbecis dominam, portanto, pelo número, e eles são o número. Já disse, e direi novamente, repetirei até que o carrasco não tiver amarrado no meu pescoço a forca: um mundo dominado pela Força é um mundo abominável, mas o mundo dominado pelo Número é vil. Continuar lendo A Civilização das Máquinas, de Georges Bernanos

A beleza do mundo, de Simone Weil

“A arte é uma tentativa para transportar numa quantidade finita de matéria modelada pelo homem uma imagem da beleza infinita do universo inteiro. Se a tentativa é bem-sucedida, esta porção de matéria não deve esconder o universo, mas ao contrário revelar a realidade ao seu redor. As obras de arte que não são reflexos justo e puros da beleza do mundo, aberturas diretas praticadas sobre … Continuar lendo A beleza do mundo, de Simone Weil

Plastificação

Vivemos na Época da Pornoalienação, da nudez coletiva, do sexo banal, dos corpos fantasmagóricos multiplicados ad nauseam… quanto mais multiplicas uma coisa, tanto mais a destróis. Já não há mais indivíduos, mas bonecos. Por isso, a Capital francesa teve a honra de anunciar que tem o primeiro bordel de bonecas de plástico. Romano Amerio sabiamente identificou uma peculiar idolatria do século XX: a Somatolatria. Mas como todo … Continuar lendo Plastificação

Horizontalidade

O artista Asad Raza instalou dentro de uma Igreja do século XVI – Chiesa di San Paolo Converso, em Milão – um campo de tênis *. Toda sacra teatralidade barroca subjugada pelo trivial esporte. Eis a Arte de nosso tempo. Houve tempo – demasiado primaveril para nós – em que ainda éramos capazes de sairmos de nós mesmos, para erguer os olhos, mirar o alto … Continuar lendo Horizontalidade

O intelectual imbecil, de Georges Bernanos

Há muito tempo a experiência me mostrou que o imbecil não é nunca simples, e muito raramente ignorante. O intelectual não deve, portanto, por definição, nos ser suspeito? Chamo de intelectual, o homem que se dá a si mesmo este título, em razão dos conhecimentos e dos diplomas que possui. Eu não falo evidentemente do sábio, do artista ou do escritor cuja vocação é criar … Continuar lendo O intelectual imbecil, de Georges Bernanos

As sereias

Na Odisséia de Homero, Circe alertava Ulisses sobre o perigo das Sereias, deveria ele ao se aproximar das terríveis criaturas, ter mãos e pés atados ao mastro. “E se pedir me desateis, vós outros – diz o Herói – De pés e mãos ligai-me com mais força”. Mas hoje as coisas mudaram e as sereias estão na moda. É o sereísmo, isto é, mulheres e … Continuar lendo As sereias

Aproveitamento político

A contemplação estética é algo completamente desconhecido ao nosso tempo. Deixar-se capturar pela beleza de uma Pintura ou a solenidade de uma escultura, deixar-se seduzir pelos versos de um Poema, é inadmissível. Ela tem que ser  reduzida a mero utilitarismo. No “Manchester Art Gallery”, no Reino Unido, foi retirada de exposição um quadro do pintor pré-Rafaelista, John William Waterhouse, intitulado “Hylas And The Nymphs” *. … Continuar lendo Aproveitamento político

Para todos

No “Os Irmãos Karamazov” de Dostoievski, o stáriets, fala de um médico que amava profundamente a humanidade, e dizia: “Quanto mais detesto as pessoas em particular, tanto mais ardo de amor pela humanidade em geral”. Lembre-se sempre destas palavras ao ver televisão, recorde-se delas nas redes sociais. Tenha medo, portanto, dos ativistas, repletos de neologismos, senhores dos slogans, tenha pavor dos intelectuais engajados. Desconfie dos … Continuar lendo Para todos

Quando em Roma

O “Corriere della Sera” nos fala de um atual fenômeno social: a falta de cultura dos turistas estrangeiros na Cidade Eterna*. Destacam-se sobretudo as bizarras perguntas dos turistas, tais como: “Mas Moisés pousou para Michelangelo?”; ou ainda, “Mas Jesus posou para a Pietà?”… Eis que agora, a História só interessa para ser reescrita e a Arte para fins ideológicos. Estudar hoje é irrelevante. A única … Continuar lendo Quando em Roma

Só a educação salva?

Atenção! Desconfie das respostas simplórias, especialmente dos messianismos cafonas. Cuidado com pseudo-redenção pedagógica. Por detrás de certa sacralização da escola se enconde o campo de reeducação. Lembre-se que hoje, sacralizar algo é politizá-lo, e por aí pululam os cultos idolátricos. Para elevar a educação ao Olimpo ideológico, as ‘grandes mentes’ se oferecem para sacrificá-la ao Deus Futuro. Não se engane, para eles, não se trata de ler … Continuar lendo Só a educação salva?