Não se renda!

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Uma praça, numa pequena cidade do interior. Imagine-se lá. Você escapando do sol do meio dia à sombra de um agradável café com uma amiga. Conversam, fazem piadas, trivialidades. Em dado momento escuta-se muito longe, mas se aproximando depressa, o ruído de um ofegar de fera e de sua corrida precipitada. Um longo barrido corta o ar. Você não dá muita atenção, apenas eleva a intensidade da voz para se fazer ouvir. Agora, bem perto, os sons de um animal forte e pesado se aproximam, as pessoas correm pelas ruas um pouco desnorteadas com o non sense da situação. Sua amiga, em pé, mãos na cabeça e expressão de espanto grita: Isto é possível?! É um rinoceronte!

Um rinoceronte? Não existem rinocerontes na América do Sul! De certo, deve ter fugido de algum zoológico, mas no interior? Improvável. De um circo? Impossível. De ua Câmara Municipal? Assembleia Legislativa? Do Congresso? Responda você.

Se o paquiderme tiver um chifre, logo ele é originário da Ásia. Se tiver dois cornos, veio da África. Ou é o contrário? As pessoas discutem à sua volta sobre as particularidades do animal. A fera solta deixou um rastro de destruição e acabou pisoteando uns pets. Alguém grita: “meu filho!”, outro murmura: “é só um pet”. Há um clima de desconcerto, desalinhamento, insegurança. Um velho rabugento sai do café e grita: “Isto é coisa da China!”.

Nos outros dias a normalidade é recheada pelas invasões de rinocerontes. As autoridades não conseguem explicar a origem do fenômeno e há autoridades que simplesmente passam a exibir, sem vergonha, seus cornos. Você fica sabendo que familiares, amigos, conhecidos estão se metamorfoseando também: paquidermes. A pele fica esverdeada e grossa, o timbre vocal muda e surgem protuberâncias na testa. Sem fôlego nem tempo para raciocínios muito elaborados, você percebe o mundo ao redor virando uma selva de rinocerontes. O que você faz? Aceita o novo normal? Marcha com a manada? Se opõe à pandemia das bestas.

Esta é uma palhinha do universo sufocante que o dramaturgo franco-romeno, Ionesco, cria em “O Rinoceronte”. Escrita na década de 1959 a peça foi um sucesso estrondoso para um público marcado por duas grandes guerras e pelo corte à seco de inúmeras bestialidades provocadas por homens e mulheres em nome de uma ideologia.

Diz o autor: “Lembrei-me de que no curso da minha vida tenho ficado muito impressionado pelo que podemos chamar de correntes de opinião, sua rápida evolução, seu poder de contágio, que é o mesmo que uma epidemia de verdade. Repentinamente as pessoas se deixam invadir por uma nova religião, uma nova doutrina, um novo fanatismo. Em tais momentos testemunhamos uma verdadeira mutação mental. Não sei se já notaram, mas quando as pessoas não compartilham mais as nossas opiniões, quando não conseguimos mais nos fazer compreender por elas, temos a impressão de estarmos vendo monstros – rinocerontes, por exemplo. Ficam com essa mesma mistura de candura e ferocidade, e se tornam capazes de nos matar com a consciência tranquila.”

Eugène Ionesco nasceu em 1909 na Romênia, que  sofreria terrivelmente sob a maldita ditadura comunista, e faleceu em 1994, na França, berço das artes; inclusive daquela tal arte engajada que acusa o totalitarismo de direita mas costuma justificar as barbáries do totalitarismo de esquerda.

Ionesco é considerado o pai do Teatro do Absurdo e parece que sob a loucura das bestas feras do poder ( político, religioso, científico, financeiro,…) todos estamos no mesmo palco, sem chance da cortina cair tão cedo e este show de horrores terminar.

No final da peça, uma voz humana resta. Uma, apenas. Ela grita: “Contra todo mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim! Não me rendo!”.

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